quinta-feira, 29 de março de 2007

DIÁFANO

Do poeta verdadeiro,
Não importa seu estilo,
Surgem sempre belos versos,
Distinção do seu ofício.

Agudos ou esdrúxulos,
De arte-maior ou menor,
Com pé quebrado
Ou em sextilha,
Sempre exultam no leitor:
Oh Senhor, que maravilha!

Escritor de poesia,
Em alegria ou lamento,
Segue a norma com maestria,
Exalando o sentimento.

Seja a regra leonina,
Métrica ou rítmica,
Silábica ou trilonga,
Ele sabe e se permite
Pois para isso tem licença,
Ousar a “tonga da mironga”!

Eu, pobre escriba,
Sem técnica nem sabedoria,
Sou, neste meio, indigente.
Sem saber nem verso branco,
Faço então o que me resta:
Eis meu verso transparente.

VENDO NADA

A tarde está fria,
Anuncia uma noite
Gelada, solitária,
Imensa.
A mais longa das noites
Está para chegar,
Trazendo lembranças,
Dores e alegrias
Vividas a dois,
A milhões de carícias
Que se perderam
No caminho.
A noite não sabe
Onde guardou a
Lua cheia e o seu
Colar de estrelas.
A noite não sabe
Onde se esconde
O calor do sorriso
Que estou cego
De não ver.

HISTÓRIA DO MUNDO (O POEMÍTICO)

Por absoluta falta
Do que fazer,
Decidi abrir os
Braços e criar
O universo.
C’uma bola de gude
Guardada da infância
Fiz o planetinha Terra;
E ao acender meu
Cigarro, fiat lux!
Lumiei a imensidão.
Montei o homem; desmontei;
Tornei a montar; ficou pior.
Tirei uma costela; virou
Coisa parecida.
Sacudi a macieira,
Rodei a baiana,
Brinquei com tudo uma semana;
Por merecimento pessoal,
No sétimo dia, descansei!

SERPENTE

Teu corpo!
Curvas esguias,
Sintonia elegante
No limite do desejo,
Mil pontos acordados
Por toques e beijos.
Macia a tua pele,
Onde escorrego mãos
E anseios,
Teus seios,
Pomos supremos,
Tua boca
Guardando a língua
Serpente,
Incendeia tesão.
Passeio tuas coxas,
Encontro lábios
A sorrir;
Descanso teus olhos
Nos meus,
Abraço o sonho maior
De sermos a mesma cama
Num arrepio de quem
Faz amor!

MORTEZINHA FERMENTADA

Valha-me Deus,
Nossa Senhora e
Mais uma pá de anjinhos barrocos!
Notei que a noite
Se esvaiu em uníssona vaia.
Apupos aos poucos tornando-me
Um imenso nada,
De uma pequenez absurda,
Absorta em sósias perdidos,
Párias de meu ego.
E eu, cego, fingi nada ouvir.
Mas viscutei demais.
Sofri sozinho e matei
De morte matada
O que restava
Da moribunda night.
E o novo dia não se faz,
Tão pouco faz-se a luz.
De luxo é o meu pranto,
Um canto de bar
Dentro do próprio lar.
Doce lar!
E eu fingindo regime.
Militar o amor
É sobreviver centas batalhas.
Navalhas sem fio me cortam
A carne e o toucinho.
Toda voz soa como besteira
Dentro da cabeça.
Vou me beber até conseguir
Me vomitar, esvaziar a cara,
Cair na cama, beijar tua presença
E morrer de vez
Pra acordar às oito!

PASSATEMPO

Passa o tempo.
Passo o tempo
Passo a passo
E o passo do tempo
Passa ao tempo
Qu'eu passo.
Passo o tempo.
Passa o tempo
Passo a passo
E ao passo do tempo
Passo o tempo
Qu'eu posso.
No compasso do tempo
Passo descompassado,
Pensando que posso
Passar ao tempo.
Passar o tempo
Passo a passo
É o que posso.
Passa o tempo.
Passa o qu'eu posso.
Ao passo do tempo
Passo,
Passo,
Passo,
Passo...

RUÍNAS DE MIM

Fogo perpétuo,
Chama que corrói;
Inferno nunca por
Dante navegado!
Saber-se morto
E ter a vida
Batendo, sincopada,
No peito.
Querer-se vivo
Tendo morrido
Na distância
Do querer.
Saciar-se com as
Migalhas da
Presença distante.
Preferir desprezo
À hipocrisia de
Um beijo morto,
Por outro pedido.
Perder-se em si,
Buscando achar motivo
Pra não te ter.
Só encontrar saída
Na bênção de Satã,
Na divina praga
De Deus.

MAIS CEDO

Gato em almofada de cetim,
Passarinho em gaiola de ouro;
Comida certa, recanto e conforto.
Carinho com hora marcada,
Seguro é este seu porto.

Eu, sou bicho de rua,
Vivo livre, sem destino;
Sou de qualquer canto da cidade.
Caminho sempre sem espanto,
Viso sempre a liberdade.

Não troco minha vida por nenhum troco;
Não sou exemplo pra quem teme a vida;
Não sou exemplo pra quem vive do medo.

Desconheço o que seja perigo, temor;
Rio diante de qualquer tragédia iminente.
Só morro no dia da morte, nunca mais cedo.

TOTENS

Quando eu estava vivo,
Era dos Beatles,
Dean transviado
Na juventude.
Caia nas estradas,
Fazia ver o 'V'
Nos dedos,
Vitória da paz
E do amor.
Trazia no peito
A medalha da
Irmandade cabeluda.
Woodstoqueei
Com Joplin e Hendrix,
Tive maconha
E Mandrix,
E sonhei.
Hoje, meu ídolo
Sou eu!

EIXOS DO SEXO

Excitação,
Ação,
Mãos,
Línguas,
Pernas.
Eternas
E centenárias
Posições.
Lições passadas
De pai para filho,
Sem nunca terem-nas
Dito.
Odor,
Brilho,
Tensão,
Tesão,
Descontração,
Contração de músculos,
Ósculos, amplexos,
Sexos soltos,
Revoltos como
Os pentelhos eriçados.
Líquidos abundantes,
Fontes de desejos,
Beijos, amantes,
Liberdade de querer,
Liberdade de aceitar.
Amar,
Gozar.

PRA CAVALGAR

Ouvi no meio da noite
Um plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac.
De repente parei
De ouvir.

Depois ouvi outra vez
O plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac,
Plac, plac, plac, plac.

Aí descobri que tinha
Um cavalo (branco)
Na minha varanda.

Montei no cavalo
E saí.

ZORRA DE VIDA

Soltando farpas,
Largando faíscas,
Quase explodindo.
Batendo biela,
Pedindo penico,
Queimando as pestanas.
Lá vou eu de novo,
Novas velhas
Histórias,
Velhos novos
Caminhos.
De ré pra frente,
Engolindo sapos,
Tomando sopa de pedra.
Vazando pelo ladrão,
Revertendo turbina,
Caindo pelas tabelas.
Cá estou eu de novo,
Poucos velhos
Amigos,
Velhos poucos
Sonhos.
Em sinuca de bico,
Matando cachorro a grito,
De cara pro Sol.
Fazendo firulas,
Escondendo o jogo,
Penteando macaco.
Sempre (quase) perdido,
Quase sempre sozinho.

ESCOLHIDO

Não sou bom de bola
Nem sei tocar violão.
Corpo de atleta,
Não tenho;
Grana no banco,
Também não.
Meu carro do ano
Já não o é há dez;
Botei meia-sola no
Vulcabrás que
Protege meus pés.
Nunca fui surfista,
Não tenho pinta de
Artista, nem fama
De garanhão.
Mas você,
Deusa infinita,
Desceu do seu
Olimpo e
Me escolheu.
Então, agradeço
A preferência
E me curvo em
Reverência,
Retribuindo com
A oferta de
Corpo, alma e
Coração!

COMO DANTON

Eu quero uma cabeça nova,
De preferência burra,
Inapta a compreender uma coisa qualquer.
Eu quero uma cabaça nova,
De preferência turva,
Inapta a ser contível ou coisa qualquer.
Eu quero nascer de novo,
Burro e inapto
A ter sentimentos belos.
Eu quero morrer de novo,
Apto e capaz
De ser-me inacessível.
Matar o hoje,
Matar a memória,
Matar o querer.
Cravar as esporas,
Sangrar o destino,
Deixar o barco correr.
Rimar o impossível, trovar com o trovão,
Fazer tempestades,
Causar holocaustos,
Ser o único acusado de toda destruição.
Não quero ser nada,
Rezar à beira da privada,
Cantar meus cânticos,
Vomitar os meus prantos,
Dar descarga de mim.
Rolar pela vida, deixar de ser gente,
Olhar-me de frente sem auto-piedade.
Eu quero uma cabeça nova pra doar à guilhotina.
Eu quero uma cabaça nova, entupida de cachaça,
Embriagar de todo, de novo,
Toda a vida.

LIKE A BIRD

Bebi King
E vodka
Com Lucille
Aos ouvidos.
Na madrugada,
Jazz iam em
Sons infindos.
A noite
Estava clara.
Ghimel e
Lua cheia.
Etílicos,
Todos seres
Blues
Se faziam
Presentes.
Havia o
Menino
Celso e
O Álvaro
No qual
Eu me mirava.
Saquei o sax
E voei para
A Tobias.
Lá eu teria
Café pra fumar!

REVERÊNCIA

Me apoio nos pórticos
Dos prostíbulos decadentes
Da velha São Salvador,
Encaro as escadas íngremes,
Impossíveis de serem
Galgadas após
Goladas de destilada
Embriaguez.
Subo nos bregas,
Desço de nível,
In possível momento
De lucidez.
Sorvo copos sujos,
Sou corvo turvo
A buscar resto
Que a vida ingrata
Vingou.
Vingo-me de tudo,
Fujo-me de ti,
Finjo-me ser-me,
Reverencio o chão
E o brindo com
O meu brinde anterior.
Lanço à distância
Toda instância
Do mal-estar.
Star de merda,
Cerda deslocada
De uma escova
Que limpa com flúor
O hálito podre,
O hábito pobre,
O não me saber.
E por não perdoar-me
O absurdo de
Tornar-me torpe,
Sorvo outro porre
E morro para renascer,
Imortal, pero sensível,
One more time
Sem ti.

QUERÊNCIA ADOLESCIDA

Adolesço à tua visão,
Torno-me inseguro
Diante do que temo,
Mas sinto.
Incompreendo o erro
De gostar-te;
E, se erro for,
Erro.
Dilemo-me a cada
Toque fortuito
Que alcanço dar
Em ti.
Cada toque é,
Para mim,
Um convite ao
Inconseqüente mais.
Beijar-te-ia a boca
Caso soubesse
Como beijar-te
Oculto de ti.
Não sabendo
Os caminhos ou
Descaminhos,
Enrijeço-me.
Torno-me olhos,
Quando, por ti,
Gostaria de ser
Alma e corpo.
Calo então
A voz, o peito;
Não calo o
Amor!

LOVE STORY (A DOR)

Após 110 minutos
De poltrona
E projeção,
O filme
Acabou.
O saco de pipocas
Apenas lembrava,
Vazio,
O meu peito.
Saí do
Cinemapático
E reencontrei
A cidade
(Realidade crua).
Caí no choro
(Misto de mim e ilusão).
Comprei novo ingresso,
E sonhei que, na tela,
Quem morria era você!

SONHAR ACORDADO

Já é tarde,
Quase um novo dia.
Acordo com passos macios
No escuro do meu quarto;
Finjo dormir.
Os passos se aproximam,
Sinto teu perfume infantil,
Tua mão de mulher;
Finjo dormir.
A tua respiração ofegante,
Tua boca na minha;
Finjo dormir.
Teu corpo deita
Ao meu lado,
Ouço-te dizer
Eu te amo!
Quero te abraçar, responder.
Abro os olhos e me viro;
Não há ninguém.
Finjo sorrir!

ESPELHO MEU

Este, que vejo espelho,
Não sou mais eu.
Fito olhos vazios,
Rugas em descaminho
E boca que não sorri.
Olho e não reconheço
Este homem que
Me encara, inerte.
Quem é ele, afinal?
Porque insiste em estar
Onde deveria haver
A minha imagem invertida?
Descubro, enfim,
A verdade.
É ele o que eu temia.
A figura que vejo,
Toda manhã,
Ao espelho,
É a minha imagem
Invertida;
Sou eu!
Eu, oposto
Do que fui!
Meu espelho
Não inverte
A figura;
Reflete,
Cruelmente,
O inverso que
Me tornei.

VIVO

Te ver!
Alegria incontida meu coração sente;
Prazer desmedido poder te olhar!
Te Ver!
Tristeza incontida meu coração sente;
Dor desmedida poder te olhar!
Te ver!
Para quê?
Te ver!
Como não te querer?
Para que querer,
Se não mais posso ter?
Te ver!
Te vejo!
Olhos abertos ou fechados,
Acordado ou dormindo,
Em sonhos e pesadelos,
Te Vejo!
Te ver!
Como não te ver!
Quero não te ver!
Não quero te ver!
Te ver!
Vivo por te ver!

AVASSALADORA

Mais uma noite insone.
Mais uma noite sem sonhos,
De pensamentos vadios,
De saudade invasora,
De avassaladora solidão.

Onde você está?
Que caminhos escolhes
Para não cruzar o meu?
De que me adianta olhar
Se não vejo o teu?

Agora, mais um dia.
Horas que se seguem
Numa rotina vaga,
Lenta, desinteressante;
Aguardando a noite vir.

Talvez nessa eu durma
E sonhe teu rosto,
Teu sorriso lindo,
Luminoso, encantador.
Caso contrário, amor...

Mais uma noite insone.
Mais uma noite sem sonhos,
De pensamentos vadios,
De saudade invasora,
De avassaladora solidão.

CRUEL

Sobes as escadarias
Qual princesa sublime;
E em cada degrau
Sinto-te pisar frio
Meu peito.
Sobes qual Lua cheia,
E sob tua luz
Vejo curvarem-se
Homens vãos.
Vens bela e eterna
Como te sonhei num
Sonho menino.
Vens altiva e mesquinha
Como te senti um dia
No peito adolescido.
Dobro mais uma dose,
Despisto o meu olhar
E me finjo feliz
Ao lado de outra,
Que me quer, que uso,
Que calo num beijo,
Beijando a ti.
Sobes à cabeça
Em mais uma dose,
Afundo, a cada ato
Sem ti.

UM OUTRO TIPO DE FÉ

Não adianta
Tentar me afastar
Da tentação.
Qualquer vacilo
Ou rendez-vous
É fato no ato,
É ação.
Te ver
Sem te ter,
Fingir não querer
Teus beijos,
É louca ilusão,
Nula encenação.
Obcecação
Lançada n’alma,
Meu corpo
Só se acalma
Ao contato
Do teu.
Ateu de fé,
Ajoelho e
Rezo em
Frente ao seu
Altar.
Não adianta
Tentar me afastar
Da tentação!

HOMENAGEM PÓSTUMA AO TEU REINO INFAME

Fostes puta,
Prostituta perdida
Que fez-me achar
A vida
Uma podridão fétida,
E a mim o câncer
No peito da criança
De pai fumante.
Sangra de mim a porra acre
Que fecunda
Humanos de merda
Como tu, como eu.
Oh puta
Crescida na amplidão
Da libidinagem
Dos antros dos ratos,
Fizestes de mim o teu reino,
E fostes soberana
Sobre o trono de pus,
Amarelo como teu corpo
Sifilítico e lindo
Como os edemas que crio
A cada queda de pós-embriaguez,
Onde vomito a cachaça
E as poesias que inspiras!

SABOR

The drops
Rolam
Ao som dos
Rolling Stones
Sobre dois dos meus
Rostos;
Um alegre,
Outro triste,
Resistem ao som
Das guitarras vadias,
À voz de Jagger,
Ao que jazz sem
Ter nascido.
O drops que rolo
Na boca,
Parece um besouro
A rolar sem sabor de maçã,
Qual cigarra sem canto,
Final de um rock n’ roll
Sumido,
Sem um Lennon existido;
Sabor amargo de
Perder você.

O LUNÁTICO E A SELENITA

A Lua, cheia, clareava teus olhos negros,
Criava mágicos e belos cachos azuis
Na cortina encaracolada que,
Quase sempre, teimavas em prender.
Mas, naquela hora, como que
Para ampliar o impacto do momento,
Estava livre como um anum ao vento.
A Lua testemunhou você dizer que
Em poucas luas de volta estaria.
Você deu meia volta após um beijo inteiro
E seguiu seu caminho sem mim, sem fim...
Passaram-se todas as luas,
Todas as ruas, tudo.
A solidão enchendo meu lado agora sem luz,
Enquanto meu outro lado, por natureza escuro,
Fazia-me minguar, sem te ver,
Te encontrar, em quarto nenhum.
Fiquei sem prumo, sem rumo, sem rota.
Não havia aprendido a girar em torno
De outra Terra, de outro Sol,
De outra estrela.
Perdi o chão, a luz, o brilho.
Hoje, nos meus descaminhos,
Evito noites enluaradas,
Com ares de idas, despedidas,
Vidas perdidas.
Busco sempre noites sombrias,
De luas novas,
Onde qualquer vulto envolto em negrume,
Oculto por onduladas mechas, mexa comigo,
Fazendo-me sentir,
Além dessa saudade imensamente absurda,
Uma réstia de esperança!

MULHER

Costela,
Ventre,
Seio,
Colo,
Braços,
Mãos,
Corpo,
Sexo.

Todas tão simples,
Tudo tão complexo!

Mãe,
Irmã,
Amiga,
Amante,
Namorada,
Esposa,
Desejo,
Saudade.

Tudo tão simples,
Todas tão Mulher!

SELF MAD(E) MAN

Vou-me. Apenas vôo-me.
Sobrevôo tudo e nada,
Esquecendo, aquecendo,
Verdades e ilusões.
Ando sobre meus próprios
Passos, na teimosia
De me fazer
Por mim.
Faz-se impossível não
Lembrar de experiências
De outrora.
Minhas, alheias,
Teias a prender
O inseto da razão.
Cada poro cultural
Que me brota à derme,
Desfaz ou refaz o
Sonho que dorme.
A observação intensa
Do mundo que me rodeia,
Tonteia, bestializa,
Torna-me a exibição
Da baliza frente à banda.
Nada sei de mim,
Nada sei do universo.
Em verso ou prosa,
Sou busca constante do Eu.
E, às vezes, nada importa.
“Seria a rosa menos bela...”

HISTRIÃO ARPISTA

Na inversão de sentimentos,
A cada porrada da vida,
No arremedo do que é se dar,
Desaba em pleno picadeiro
A paixão já sem graça.
O amor de cara pintada
Faz o delírio da platéia,
Que iludida com os gestos
E piadas de quem, triste,
Faz o show, aplaude e ri.
No entanto, o peito escancarado
Já não acredita na ribalta,
Não tem mais fé nos sonhos,
Promessas e ilusões.
Um pé na frente e outro atrás,
Olhando sempre de banda,
O bobo sem corte prefere ir
Seguindo sozinho!

VAI PASTAR

Chega de cega-reza,
De cerca-Lourenço;
Esse falso alarido
Está mais chato
Que muruçoca
No pé-de-ouvido;
Parece enguiço
Mal rogado, rebusno
De quem não tem
Espelho, vergonha
Na cara-de-pau.
Minhas aurículas
Penduram brincos;
Mas não brinque
De fazer zoada,
Entoar zurrada.
Isso é água passada
Qu’eu não estou
Mais a fim de ouvir.
Finges oração
No que apenas
É ornejo, lampejo
De pseudolucidez.
Lamento dizer
Que não mais lamento
Dizer não acreditar
Na sua verdade;
Passei da idade.
Orno minha vida
Com o que vale à pena
Pra tumba levar.
Aí, fica difícil caber-me
Este seu orneio.
Vai procurar tua turma
Brincar de pular cerca,
Se coçar no mourão
Pra depois ir pastar.

CONTRA-SENSO

Eu não sei nem por que
Entrego-te minha vida
Se quero estar só;
Me perco, me embaraço,
Aperto mais o nó
Que une o meu caminho
Aos carinhos teus.
Anseio a solidão,
Mas dou-te a alma, a vida,
Dôo meu coração;
Razão já não há mais,
Sou só desejos.
Desejo de fugir
Neste exato momento.
Fugir de mim?
Fugir de ti?
Este é o meu tormento.
Já não sei mais
O que fazer,
Não sei pra onde ir,
Só sei que amo tanto
Que chega a doer;
Uma dor tão infinita
Que faz esquecer
A dor antiga e viva
Que habita o peito meu,
De um tempo já perdido
Onde a ilusão,
Em mim, fazia mais sentido
Que os descaminhos teus.
Abraço o espaço
Onde tua ausência
Se torna tão presente,
Tanta incoerência.
Não quero mais você
Na minha vida...
Por favor,
Fica!

CABEÇA DE AVESTRUZ

Sem você,
Segui vagando ruas,
Gemendo o canto
Das emas
Num agouro pessoal.
Busquei nas
Esquinas,
As outrora meninas,
Resultei abutre
Sem sorte.
Acabei por pousar
Num balcão qualquer
E, qual pelicano,
Enchi o papo
Esvaziando copos.
Novos amigos
No mesmo estado,
Falando alto, qual
Gansos a grasnar.
Tentando voar
Noite afora,
Esquecendo dos ninhos,
Perdizes na noite,
Voltamos a vagar.

ARTE-FINAL

Uma vida a ser passada a limpo;
Um homem rascunho, borrão.
Nada de novo, nada de seu;
Ao tempo, ao léu, na contramão.
Sem eira nem beira, seguindo;
Agradecendo, como se fora afeto,
Desdém e humilhação.
Uma vida a ser riscada do mapa;
Um homem na companhia da solidão.
Nada de seu, tudo de novo;
Ser arpista é a sina deste histrião.
Nem gato, nem sapato;
Quem dera soubesse a minha missão.
Pergunto se posso,
Pergunto se devo,
Pergunto se tenho;
A resposta ecoa, solene:
Não!

EU, FÚTIL

Vivo pelo mero hábito
De viver.
Talvez haja um sentido
No meu jeito de ser.
Sou-me, ou sonha-me
Alguém?
Não me importo mais
Com desgraças ou
Alegrias.
Às vezes quero-me
Louco, sábio, delinqüente;
Idiota, amante, idolatrado.
No fundo, eu nada quero ser.
Preciso viajar, mudar,
Talvez pr’aqui mesmo,
Quem sabe, mais além.
Sei que te quero, mas
Você não me agrada.
Eu me irrito
Por ter tantas vontades,
E por poder realizá-las
À maneira de vocês.
Eu quero tudo isso,
Tenho nojo disso tudo!

SOLITATIS

Que bobagem querer
Não querer sentir saudade.
Que loucura quereres
Não querer qu’eu sinta.
União de corpos distantes,
De desejos amantes,
Saudade há!
Brota límpida,
Pura, cristalina.
Retina visionária
De quem não te vê.
Quem disse ser a despedida
O início da tua volta,
Não imaginou que
Cada segundo sem você
Fosse tão eterno
Como quando a tenho comigo.
Saudade, desejo,
Paixão, vontade,
Imagem guardada
No céu da minha boca,
Reflexo dos teus beijos.
Que bobagem/loucura
Não querer sentir-se
Saudade!

INSENSATEZ

A noite é vazia!
Tentou-se
Viver intensamente,
E num instante
Ficou assim,
Oca como oca sem índio,
Uma tribo sem guerreiros,
Derradeiro momento
De não fazer amor.
Ato abstrato em mim,
Ato concreto,
Ato de não te ter.
Insensatez de quem deseja,
Boceja e esconde a sonolência.
No final, brota inocente
O teu dormir profundo,
Que abate o profano
E me dorme também.
Noite vazia de teu corpo,
Noite vadia nos sonhos
Que sonho por ti!

PIRATAS, CORSÁRIOS E BUCANEIROS

Navegando na minh’alma,
Singrando o meu mar,
Nenhum porto me acalma;
Sinto o peito a sangrar.

Vento, sol, calmaria,
Tempestade e luar;
Meu navegar impreciso,
Não tem norte a guiar.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Vento em popa, vela aberta,
Sou uma nave à deriva;
Sem sextante ou estrela,
Pra onde guio a minha vida?

Tripulante solitário
Sou grumete e capitão;
Dou-me ordens e obedeço;
Reaprumo o coração.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas a rondar
Meu tesouro escondido
Que nem eu sei bem onde está.

Os mistérios de Bermudas,
A Atlântida lendária,
Já não cabem nos meus sonhos
De uma vida imaginária.

Abaixo velas, ponho remos;
Leme em prumo; direção.
Meus fantasmas vão sumindo
Sem um tiro de canhão.

Piratas, corsários, bucaneiros,
Meus fantasmas derrotados
Meu tesouro escondido
Verei, um dia, ao meu lado.

Sem pressa sei que chego
Onde tenho que chegar;
Se navegar não é preciso
Pararei de navegar.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver
O impreciso viver.
É preciso viver,
É preciso viver
Viver,
Viver,
Viver...

ROTINEIRAMENTE

Todo amanhecer
Me lembra que
É necessário dormir.
É um aviso
De que a magia,
A folia dos pardos
Gatos noturnos,
Se foi.
Então, sem vontade
E conformado,
Me encolho,
Recolho,
Fecho o olho
E deito.
Desfeito,
Levanto de tarde,
Às três,
Disfarço a ressaca
Num coco gelado
E mastigo algo
Lá pelas dezesseis.
Caminho meu caminho
Até o pôr-do-Sol.
E quando ele se vai,
Vem o farol iluminar
Mais uma noite
De boêmia perdição
Em São Salvador da Bahia.

INVERSÃO

Átomo,
Singular,
Infinito.
Assim foi o amor
Dedicado a você.
Átono,
Vulgar,
Indefinido.
O amor foi assim
Deturpado por você.
Espelho côncavo,
Seu olhar diminuía
O meu,
Virava de
Ponta-cabeça
Toda imagem
Ingênua do que seria
O reflexo do desejo.
Tudo começou a
Se dividir,
A ser igual,
Limitado.
Num segundo
Era absoluto,
Noutro,
Nada não!

TENSÃOPAULOUCURATIVA

As formigas passam
Velozes, atrozes,
Nas suas carruagens
De metal,
Invadem o sinal;
Vermelhos estão meus
Olhos.
Se eu fumar, poluo
A poluição?
As ruas são veias,
Meu coração bate
Ao léu.
Meu céu, cadê?
As estrelas brilham
No topo do Itaú,
O mar ronca tão longe
Qu’eu sinto o cheiro
Da saudade.
A cidade é bem grande
Mas cabe no meu bolso
(Mapinha pra turista).
É uma gente identicamente
Diferenciada,
Viciada em labor,
Sabor de tensão.
Me aproximo assustado
Deste estranho país.
É feroz, diferente,
Mas me dá tesão!

ENTE

Sou um ente perdido
Entre fadas, duendes e
Gnomos do bosque.

Borboletas azuis
De mim se afastam;
Voam em elipse distante.

Afaga-me o vento
Com folhas serrilhadas;
Fere-me a face.

Oculta, cada clareira,
Uma nova magia;
Surpresas delirantes.

Busco em mim
O real do imaginário,
E nem sei quem sou.

Encontro-te inteira,
Como um dia conheci;
Descubro-te feiticeira.

Cavalgo unicórnios
Fogosos e alados;
Não transponho o enigma.

Desabo na relva macia
Onde brota a hera;
Durmo insone.

Sou um ente perdido!

ZOTISMO PARTILHADO

Nada estava sendo
Como se imaginou,
Um dia,
Que tudo
Deveria ser.
Tudo estava sendo
De uma forma
Desconexa.
Sem palavras
Nem atitudes.
Nossos horizontes
Vagavam
Por vagar,
Sob nossos
Olhos incrédulos.
O fogo da paixão
Nem cinzas
Deixou sobrar
Sob os escombros.
Não há o que
Olhar desta tragédia,
Pois de saldo
Não há nem
Rescaldo.

ABRAÇO A SOLIDÃO

Sua ausência
Entranha em mim;
Reduz-me a muito
Além do nada ser.
Só a saudade
Preenche meu âmago,
Amaro de dor.
Dilacerante dor.
Só ela revela-me
Ainda estar vivo;
Ou, ao menos,
Ainda algo sentir.
Que valência há
Em viver assim?
É isto viver?
O que resta de mim
É tão triste
Que nem mensuro.
No escuro vazio
Do meu quarto,
Sem sonhos
Para serem sonhados,
Vejo tua ausência
Surgir impiedosa,
Cruel, inteira.
Fecho os olhos,
Abraço a solidão
E choro...